s seus cavalos a correr sobre a
água.
O rei bebeu um trago de vinho e olhou carrancudo para Ned.
- Então me aconselha a não fazer nada até que o filho do
dragão desembarque seu exército nas minhas costas, é isso?
- Este "filho do dragão" está na barriga da mãe - Ned
retrucou. - Nem mesmo Aegon conquistou alguma coisa até
ter sido desmamado.
- Deuses! Você é teimoso como um auroque, Stark - o rei
olhou em volta da mesa do conselho. - Terá o resto dos
senhores perdido as línguas? Ninguém incutirá bom-senso
neste tolo de cara congelada?
Varys dirigiu ao rei um sorriso bajulador e pousou a mão
suave na manga de Ned.
- Compreendo suas apreensões, Lorde Eddard, realmente
compreendo. Não senti nenhuma alegria por trazer ao
conselho estas graves notícias. O que estamos discutindo é
uma coisa terrível, uma coisa vil. Mas aqueles que ousam
governar têm de fazer coisas vis para bem do reino, por mais
que isso lhes custe.
Lorde Renly encolheu os ombros.
- Para mim o assunto parece suficientemente simples.
Devíamos ter mandado matar Viserys e a irmã há anos, mas
Sua Graça, meu irmão, cometeu o erro de ouvir o que dizia
Jon Arryn.
- A misericórdia nunca é um erro, Lorde Renly - Ned
respondeu. - No Tridente, Sor Barristan abateu uma dúzia de
bons homens, amigos de Robert e meus. Quando o trouxeram
até nós, gravemente ferido e próximo da morte, Roose Bolton
insistiu que lhe cortássemos a garganta, mas seu irmão disse:
"Não matarei um homem por ser leal nem por lutar bem", e
enviou seu próprio meistre para tratar das feridas de Sor
Barristan - dirigiu ao rei um longo olhar frio. - Gostaria que
esse homem estivesse aqui hoje.
Robert ainda tinha vergonha suficiente para corar.
- Não é a mesma coisa - queixou-se. - Sor Barristan era um
cavaleiro da Guarda Real.
- Ao passo que Daenerys é uma garota de catorze anos - Ned
sabia que estava insistindo muito, para além do que era
sensato, mas não conseguia ficar calado. - Robert, pergunto-
lhe, para que nos erguemos contra Aerys Targaryen, se não
foi para pôr um fim ao assassinato de crianças?
- Para pôr um fim aos Targaryenl - o rei rosnou.
- Vossa Graça, nunca o vi temer Rhaegar - Ned lutou por
manter o desdém afastado da voz, mas falhou. - Será que os
anos o emascularam tanto que agora treme com a sombra de
uma criança por nascer?
Robert ficou roxo.
- Já chega, Ned - o rei o preveniu, apontando seu dedo em
riste. - Nem mais uma palavra. Esqueceu quem é o rei aqui?
- Não, Vossa Graça - respondeu Ned. - E Vossa Graça, se
esqueceu?
- Basta! - o rei berrou. - Estou farto de conversa. Que eu seja
maldito se não acabar com isto. Que dizem todos?
- Ela tem de ser morta - Lorde Renly declarou.
- Não temos escolha - Varys murmurou. - É triste, é triste...
Sor Barristan Selmy ergueu seus olhos azuis-claros e disse:
- Vossa Graça, existe honra em enfrentar um inimigo no
campo de batalha, mas não há nenhuma em matá-lo no
ventre da mãe. Perdoe-me, mas devo colocar-me ao lado de
Lorde Eddard.
O Grande Meistre Pycelle limpou a garganta, um processo
que pareceu demorar vários minutos.
- Minha ordem serve o reino, não o governante. Há tempos,
aconselhei o Rei Aerys tão lealmente como aconselho agora o
Rei Robert, e por isso não nutro por esta moça nenhuma má
vontade. Mas pergunto-lhes o seguinte: se a guerra voltar,
quantos soldados morrerão? Quantas vilas serão queimadas?
Quantas crianças serão arrancadas das mães para morrer na
ponta de uma lança? - afagou a luxuriante barba branca,
infinitamente triste, infinitamente cansado. - Não será mais
sensato, até mais bondoso, que Daenerys Targaryen morra
agora para que dezenas de milhares possam viver?
- Mais bondoso - disse Varys. - Ah, que bem-dito, e que
verdadeiro, Grande Meistre. Esta é uma verdade muito
grande. Se os deuses tiverem o capricho de conceder um filho
a Daenerys Targaryen, o reino sangrará.
Mindinho foi o último. Quando Ned olhou para ele, Lorde
Petyr abafou um bocejo.
- Quando um homem se dá na cama com uma mulher feia, a
melhor coisa a fazer é fechar os olhos e despachar o assunto -
declarou. - Esperar não tornará a donzela mais bonita. Beije-
a e faça o que tem de ser feito.
- Beije-a? - repetiu Sor Barristan, horrorizado.
- Um beijo de aço - Mindinho esclareceu.
Robert encarou a sua Mão.
- Ora, eis aqui, Ned. Você e Sor Selmy estão sós nisto. A única
questão que permanece é quem poderemos encontrar para
matá-la?
- Mormont suspira por um perdão real - lembrou-lhes Lorde
Renly.
- Desesperadamente - Varys confirmou -, mas ainda suspira
mais pela vida. A essa altura, a princesa aproxima-se de Vaes
Dothrak, onde puxar uma lâmina significa a morte. Se eu lhes
contasse o que os dothrakis fariam a um pobre homem que a
usasse numa khaleesi, nenhum dos senhores dormiria esta
noite - afagou uma bochecha empoada. - Agora, veneno... as
lágrimas de Lys... Digamos que Khal Drogo nunca precisaria
saber que não foi uma morte natural.
Os olhos sonolentos do Grande Meistre Pycelle abriram-se de
repente. Olhou de soslaio para o eunuco.
- Veneno é a 